Josefino

Pés descalços,
Arrastados no piso molhado.
De onde veio?
(ninguém sabe)
 
Bate palmas Josefino!
Ódio do proletário
Sistema cativo
Atira bala
Cospe na cara
Faz de otário
 
Soca o virão
Esquina fora
Pega o pacote
Manda embora
 
Corre o risco
Da metralha
Sobe o carro
Desenrola
 
Fino trago.
Filado,
Mastigado.
Seu tabaco
No boteco embala.
 
“Mãos para o alto!”
Josefino!
Atenção!
Cânhamo na mão!
 
Autora: Elienai Pereira

cozinha

Após, nossa noite a sós
Endeusada por instantes,
Acordei do sono habitual.
Marcas no corpo cravado
Ao qual, rendi-me a ti ajoelhado.
 
Busquei a roupa íntima
Pelo chão do quarto
Que roubastes no desvario
Furor da cama.
 
Ouvi a gargalhada na cozinha.
O contentamento do gozo
Atravessava os cômodos
Preenchendo a casa vazia.
 
Em passos lentos,
Cheguei por trás...
Agarrei-me à cintura.
Com a palma da mão,
Puxei o cabelo,
Mordi o pescoço,
Sobrepuja doçura.
 
Vestiu tua pele
A camiseta largada.
Visão de tirar o juízo,
Acabou-se rasgada.
 
Autora: Elienai Pereira

Felino

Leva comigo o repulsivo
Inimigo do abismo
Oh perpétua alma agoniada.
 
Sangue brota da veia morta
Esguichado em veneno.
(Grito contido no jazigo)
 
Dá voltas à surdina casa
Temerosa sombra
Escombros do sopro ruído.
 
Enlouqueces de choque
Oh espírito vivo
3 da manhã no caixote
Gato preto felino.
 
Autora: Elienai Pereira

Nem da água e nem do vinho
Toma o menino
Ao andar á rua vazia
Da festa de São João.
 
Chinelo maltrapilho,
Patrão maldizente.
Insultado, pois não mente
A miséria do complacente.
 
Chuta a pedra
Dorme no chão
Reage ao perigo
Dorme cedo no frio
Arrasta o colchão
 
Engraxa bota
Martela sapato
“Dá um trocado?”
Tenho não
Até que acha
Livros no lixão
 
Lê menino!
Aprende a história.
“Posso ler não”
A fome bate na hora
O nome um pingo de letra
Escreve a tristeza do seu coração.
 
Autora: Elienai Pereira
Largo do Rosário de 1948. Menino Engraxate – Gilberto De Biasi.

Sobreposições

Aurora boreal transpassada em cores
Formam os espirais que cruzam-se
Sobrepondo a instabilidade da mente.
 
A fonte desconhecida da criação de ondas
Propagadas em um meio vazio
Sujeitadas a subserviência da velocidade
do pensar.
 
Frequência de espectros invisíveis,
ultravioleta
Percebidas por meus olhos
Não cessam o estado da consciência.
 
Os ventos solares descrevem imagens
Entre os miúdos significativos do meu ser
No espetáculo imprevisível, testemunhado 
através da natureza.
 
Autora: Elienai Pereira

Escorpião

Entre os mais antigos...
Invertebrado,
Aracnídeo,
Distante e forte
Fixo e terrestre.
 
Habita na intensidade
Do clima sombrio,
Debaixo de pedras,
Folhas e troncos.
Enterrado na areia
Do deserto.
 
Escorpião.
Tu és predador
Carnívoro.
Por natureza,
Sensorial.
 
A capacidade
De rastrear vibrações
Desperta cautela
Pelo devorar da própria carne.
 
Da morte
O renascimento.
Da vida
O sofrimento.
Na dor similar
Carrega o teu veneno.
 
Autora: Elienai Pereira

Passeio em Copacabana

De início inocente.
Lá vem a carente!
Não provou ser diferente,
Comum no que sente.
 
O medo de machucá-la
Refez-me o toque,
Gentil e delicado
Paciente e dedicado.
 
Quis tanto o futuro
Que esqueceu o presente.
Desleixou a conquista,
Converteu-se ausente.
 
Cedo passado,
Evolução em espaços.
Aprendi a comunicar-me,
Desaprendeu a comunicar-se.
 
A paixão da areia no vento.
Construção repentina
Não sobrevive a rotina
É levada pelo sopro desatento.
 
A decepção nos defeitos
Duros do menosprezo.
Acomodação cheia de reclamação
Sobrecarregou o leve na frustração.
 
Doce passeio em Copacabana...
Ensinei-te a razão
Daqui em diante
Conduza sozinha a emoção.
 
Autora: Elienai Pereira

https://youtu.be/fIrFMvUi51g

Voyeur

Nosso local secreto
Aprazado por esses dias
De clausura.
E eu, ali, parada
Encostada no poste
Olhando pra cima
Á observar o teu andar
Frente a um prédio qualquer.
 
Da janela, percebeu
A presença.
Esboçou travesso sorriso
Reconhecendo o tamanho
Da libido
Que permeou o meu apetite.
 
Com o gesto lento,
Desabotoou a camisa
Abrindo até a metade,
Interrompendo o movimento.
 
Dançou no balanço
Dos quadris
Quase em súplica
Hipnotizada sobre
Os olhos que a desejavam.
 
Sabia o que fazia
E a quem satisfazia.
Os dedos na barra
Da calcinha
Aliviaram a sede
Durante o espiar
Do livrar de suas inibições.
 
Autora: Elienai Pereira